Esboço do Texto — Alison Medeiros https://blog.alisonmedeiros.com.br Contos, crônicas e outros escritos Tue, 08 Sep 2026 21:27:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 Essa tal felicidade https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/essa-tal-felicidade/ https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/essa-tal-felicidade/#respond Tue, 08 Sep 2026 21:27:47 +0000 https://blog.alisonmedeiros.com.br/?p=13 De todas as coisas que buscamos na vida, talvez a felicidade seja a maior delas. Se você perguntar agora mesmo para uma pessoa ao seu lado se ser feliz é essencial para a vida dela, muito provavelmente a resposta seja sim. Talvez porque nos sintamos incompletos quando não temos ou não somos felizes. E mesmo que seja um instinto básico, essa felicidade é manifestada de forma diferente para esta ou aquela pessoa. Alguns a encontram em trabalho, outros em dinheiro, na família e, em geral, na religião. Ao que me parece, servir a um propósito maior é sempre a mola propulsora para a felicidade.

Por muito tempo para mim também foi assim. Hoje, pessoalmente, não acredito que ela exista. Como qualquer pessoa, tenho aqui e ali uma manifestação de alegria e, muitas vezes, pelos motivos mais banais. Mas ser feliz de fato, isso não. E sem querer pôr à prova a felicidade de ninguém, sou descrente que alguém seja feliz por completo.

Pode parecer um tanto quanto amargo, mas a vida sempre me tratou nos cascos. Desde a infância pobre aos dias de hoje. É uma coisa quase pessoal. A impressão que tenho é que Ele, a vida, me dá corda apenas até a próxima árvore só para me ver pendurado pelo pescoço e, na minha agonia, ter alguma satisfação. Talvez faça por diversão. Não sei dizer.

Tentei me manter nEle, o caminho, mesmo quando os espinhos machucavam os meus pés. Mas as inúmeras negativas de ajuda ao longo do caminho me fizeram desistir. O peso tornou-se muito grande e os espinhos nos pés profundos demais a ponto de sempre esperar pelo pior, mesmo quando dou o melhor de mim. E esse é o grande problema: o melhor de mim não é o suficiente. Sei disso porque por mais que me esforce o fim é sempre o mesmo e eu não posso mais. Me sinto desesperançoso. Me sinto em busca de uma justiça que nunca chega, em busca dEle, a verdade, que nunca será dita, de seguir regras feitas apenas para me dizer o quão indigno eu sou e que não importa se eu plantar o melhor que eu tenho, sempre vou colher o roubo do meu trabalho, a intranquilidade e a perda. Mas existe ainda um outro problema: as amarras são fortes demais para serem quebradas e muitas são disfarçadas de benevolência, o que culmina na inevitável atribuição de valor ao algoz. A venda atada aos olhos bloqueia os raios de liberdade para que não se possa ver que por aquilo que muitos morreram se vale a pena ter.

Durante muito tempo o que tinha eram braços fortes e disposição de acordar de manhã e dizer: estou aqui mais uma vez. Faça o seu pior porque eu não vou facilitar para você. Mas hoje, tendo vivido mais da metade da minha vida, me sinto como um cavalo velho. Açoitado por toda minha existência pelo chicote de couro grosso e tiras largas empunhado pela vida. E as marcas deixadas nas costas são lembranças para que o carrasco se faça sempre presente em uma sombra intimidadora, para que não me esqueça de que nada é para mim e que as migalhas caídas da mesa do meu “senhor” são as dádivas pelas quais eu devo ser grato. Mas no fundo de tudo, eu ainda tenho profunda inveja do cavalo velho, porque este, em sua ignorância e humildade, morrerá em paz. Lambendo a mão do seu carrasco, grato por sua existência e por aquela tal felicidade.

Texto por: Alison P R Medeiros

30/08/2018

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O Mistério de Eliza https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/o-misterio-de-eliza/ https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/o-misterio-de-eliza/#respond Tue, 08 Sep 2026 21:21:19 +0000 https://blog.alisonmedeiros.com.br/?p=11 Tirou o sapato, a camisa e sentou-se por um instante na cama. Sentia um aperto no peito e seu semblante abatido denunciava seu estado. Levantou-se vagarosamente e caminhou em direção ao banheiro num passo arrastado, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. No caminho, parou em frente a sua velha cômoda de mogno. Pegou o celular e checou as mensagens. Nenhuma nova, apenas aquela que havia lido mais cedo. Não se importou, era apenas a força do hábito.

Curvou-se para frente e esticou o braço. Agarrou o puxador e vagarosamente abriu a última gaveta. Afastou um punhado de meias com a mão de um lado e depois de outro, impaciente para achar logo o que procurava. Finalmente moveu outras meias e então viu o objeto que procurava envolto em um pano de veludo preto. Sentiu seu sangue congelar. Colocou as mãos sobre a cômoda e abaixou a cabeça. Suspirou fundo e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Pegou o objeto ainda enrolado no pano preto e olhou novamente com desespero para ele como se não houvesse alternativa para o que viria.


Ergueu-se novamente, pegou o celular com a outra mão e voltou a caminhar para o banheiro. Os poucos metros até a porta pareciam não ter fim. Parou na porta e apoiou-se no portal. A dor que sentia no peito era grande demais para passos rápidos. Pensou por um instante se deveria seguir. “Por que a dúvida?”, disse num breve sussurro. Tentou permanecer firme e entrou. Sentiu o cheiro de lavanda do desinfetante e escaneou o banheiro com os olhos para ter certeza que nada estava fora do lugar. Mesmo naquele momento sua obsessão por limpeza não o deixava. Deu mais alguns passos e encostou as costas na parede de azulejos brancos. “Frio”. Escorregou as costas pela parede e foi abaixando-se até que se sentou no chão. Ergueu um pouco os joelhos e apoiou os cotovelos sobre eles, colocando as mãos na cabeça em desespero.


“Poxa Robson, você me fez correr. Estava do outro lado do mundo e vim assim que pude. Bom, agora que estou aqui vamos logo com isso. Tenho muito o que fazer e muitos para atender”, disse a velha senhora com a foice na mão.

Robson pareceu inerte. Seu coração batia acelerado e o silêncio tomava conta do ambiente, interrompido apenas pelo aviso de bateria baixa do celular. Enxugou as lágrimas e pegou de forma cuidadosa o objeto. Desembrulhou-o e uma luz reluzente ofuscou seus olhos. Manejou com calma o embrulho e empunhou a arma prateada de cabo preto. “É o fim”, exclamou. Virou a arma para o próprio rosto e colocou-a na boca. Sentiu o gosto esquisito da pólvora e o frio do cano de metal.


“Vamos, puxe o gatilho. Tenho mais o que fazer.”


Num instante de lucidez e desespero absoluto, retirou rapidamente a arma da boca e ficou em prantos. O celular que segurava cai e a tela acende. A mensagem que Robson havia lido mais cedo ainda estava lá, visível: ELIZA ESTÁ MORTA.

“Sabe? Nunca me acostumei com minha profissão. Um dia estou aqui no outro ali. Um saco. Uma correria. Tudo é urgente. Mas há dias que são até divertidos. Busco umas pessoas que merecem, viu? Mas nunca vou me acostumar a buscar crianças. Elas são meu ponto fraco. Trabalho para os piores vilões e até para o acaso. Mas o fato é que mais cedo ou mais tarde todos, um a um, vão me encontrar”.

Robson pega o celular no chão e lê incrédulo uma última vez a mensagem. ELIZA ESTÁ MORTA. Seu coração está em frangalhos. Sua mente só consegue repetir a mensagem de novo e de novo. Ele volta a olhar para a arma e leva-a à boca novamente. Começa a puxar o gatilho. Um pouco e mais um pouco. O celular em sua mão vibra e a força do hábito faz com que ele olhe para a tela. VOCÊ TEM UM NOVO E-MAIL DE ELIZA.

“É. Lá se vai o trabalho que tive. Nos encontramos daqui a alguns anos”, disse a velha senhora, indo embora de repente.

Ele mal pode crer no que acaba de ver. “Eliza? E-mail pra mim?”, pensou. Soltou a arma e tentou ler o e-mail no celular. Os olhos cheios de lágrimas o impediram. “Malditas letras pequenas”. Apoiou a mão no chão e fez um esforço para se levantar, mas as horas passadas naquele chão frio haviam deixado seu corpo moldado ao piso. Esforçou-se mais e finalmente conseguiu levantar-se. O andar pesado refletia em seu rosto a dor por ter ficado na mesma posição por tantas horas. Passou por um corredor e por outro e chegou ao escritório. Olhou com o desejo mais profundo para o Laptop em cima da mesa. Como se sua vida dependesse disso. Chega à mesa e senta-se em frente ao computador. Aperta o botão de ligar e aguarda impaciente pelos procedimentos de leitura da máquina. “Vamos. Vamos. Máquina idiota”. Quando o Laptop finalmente liga e a área de trabalho é exibida, ele fica feliz por ter gastado $0,99 centavos no novo aplicativo de e-mail. “É verdade. Está aqui o e-mail de Eliza”. Por um momento Robson hesita em clicar sobre o e-mail para abri-lo, temendo que seja verdade a mensagem que recebera mais cedo. Quando finalmente reúne todas as forças que podia, toma coragem, respira fundo e clica no e-mail.

“Meu amor,

Sei que você ficou muito bravo quando fui embora. Tentei explicar-lhe que minha doença destruiria-nos. Destruiria nosso amor. Mas hoje vejo que minha partida foi tão destrutiva quanto minha doença. Talvez fosse melhor ter feito como você queria, mas não podia deixá-lo me ver nesta situação. A simples possibilidade de que você me ver definhar era insuportável demais para que eu continuasse por perto.

Fiz meu tratamento e por um tempo funcionou bem. O problema é que sempre há um porém, não é mesmo? Nada pode ser simples como gostaríamos.

Meu amor, agora me dou conta que há muito tempo não lhe chamava assim. Meu amor! Tivemos uma bela vida juntos. Ver você nas coisas simples do cotidiano foi a mais intensa felicidade que senti. E mesmo nos seus defeitos irritantes eu pude ver beleza. E, por conhecê-lo tão bem, quero que viva intensamente. Guarde nossa história com o carinho que ela merece e siga em frente. Sinto muito por não acompanhá-lo, mas meu coração sempre estará com você. Fiz o meu melhor, mas devo deixá-lo seguir.

Com amor,

Eliza.”

Robson debruça-se sobre a mesa e chora. Seus sentimentos misturados causam-lhe confusão e êxtase. O celular jogado em cima da mesa toca. Robson olha para a tela. “Número restrito. Bela hora para ligar não acha?”. O celular para de tocar e ele volta a concentrar-se em seus sentimentos. A confusão era grande a essa altura. Ele sentia um misto de privilégio por ter sido amado por alguém como Eliza e ao mesmo tempo gostaria de acabar com a dor que sentia. “Seria mais simples”, pensa.

O celular emite um ruído. NOVA MENSAGEM. Ele pega-o irritado. “Por que não me deixa em paz?”, gritou Robson com a força de seus pulmões. Abre a mensagem e então lê: ESTOU NA PORTA. Procura pelo remetente. “Número restrito. Ok, assinatura. Droga. Maldita bateria”. Robson para por um instante e então pensa: “Eliza”. Desesperado levanta depressa e segue em direção à porta de entrada. No caminho tenta enxugar as lágrimas e ficar apresentável para vê-la. Desce as escadas afoito, corre pelos corredores. “Odeio o tamanho dessa casa”, falou. Em seu rosto havia uma mistura de alívio e esperança. “Estou indo, meu amor”. 

Chega ofegante à porta. Para por um momento para recuperar o fôlego. Não quer que Eliza o veja assim. Robson leva sua mão à maçaneta da porta e abre. O sol da manhã ofusca um pouco seus olhos e, durante alguns segundos, ele não consegue distinguir o vulto que vê. Quando seus olhos se ajustam à luz, Robson fica paralisado. Depois de algum tempo, a mudez do choque passa, Robson consegue falar três palavras:

“Mas você não…”

Texto por: Alison P R Medeiros

20/02/2015

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O Nascer do Texto https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/o-nascer-do-texto/ https://blog.alisonmedeiros.com.br/2026/09/08/o-nascer-do-texto/#respond Tue, 08 Sep 2026 21:14:55 +0000 https://blog.alisonmedeiros.com.br/?p=8 Todo escritor, de forma geral, amador ou profissional, quer ver seu texto, nem que seja em um velho mural, sendo lido e aproveitado. Talvez porque este tome vida própria ao ser expelido ou talvez porque os textos tomem permissão de seus criadores para partir além das fronteiras de posse e passam a provocar, emocionar, indagar. Ou pode ser que as palavras e frases, antes desorganizadas e desatentas, agora reflitam o brilho de sua importância.

O fato é que o parto da escrita é como a agonia do nascer. A dor incessante do processo, que parte a alma do escritor nas incertezas das letras e pinga no papel o desespero de suas indecisões, torna-se, ao fim de sua jornada, uma parte fundamental do ser que o escreve.

De certa forma, todo texto nasce desajeitado e chorão, mas reconhecem-se em seu esboço os traços de semelhança do criador. Cresce engraçadinho alimentando-se das risadas de canto de boca para ganhar colo. Atrevido, aborrecido e até incompreendido quer livrar-se logo do dono e apela até para as causas do coração.

Mas quando chega em sua idade mais bela procura curioso pela musa inspiradora. Esgueira-se pelos cantos de seus domínios tentando vislumbrar uma paixão ou um amor de verão, que vem e que vão, mas deixam um pedacinho de cada um. Depois de tudo, amadurece. Cheio de si, no melhor de sua formatação, conquista. Para, enfim, tornar-se o velho sábio de mãos dadas com o tempo, seu novo amigo. Que sempre diz: chega de provocação, emoção e razão, é hora de ensinamentos.

Texto por: Alison P R Medeiros
16/01/2015

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